Gnosticismo e Docetismo.

Posted: quinta-feira, 5 de janeiro de 2012 by Sung Ho in Marcadores:
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O Gnosticismo foi um movimento cuja gênese é incerta[1]. Há estudiosos que enxergam indícios primitivos dessa corrente de pensamento ainda no Evangelho de João, quando o evangelista faz uma defesa contundente da encarnação de Jesus Cristo e da sua divindade, e.g. no primeiro capítulo. Mas foi a partir do século II, ainda na era dos padres apostólicos, que esse movimento encontrou um terreno fértil dentro da igreja. Justino Mártir foi um apologeta que combateu essa heresia[2].

Resumidamente, o Gnosticismo está baseado no dualismo persa e nas filosofias orientais provenientes da Mesopotâmia. A isso também foi somado conceitos e filosofias helênicas. Dentro da Igreja o movimento gnóstico desenvolveu uma maneira muito particular de reinterpretar as Escrituras, particularmente os Evangelhos, aplicando esse dualismo em relação à Deus (impondo uma diferenciação no Deus do Antigo Testamento e do Novo Testamento), à criação e até à própria pessoa de Cristo.

O físico e o material são considerados inferiores em relação ao espírito e à gnose, o conhecimento supremo do divino que liberta a humanidade do cativeiro carnal. Há um dualismo também entre o material e o imaterial. Tudo o que é físico é mal por definição. “A grande atração do gnosticismo durante os primeiros séculos da Era Crista não deriva de suas especulações cosmogônicas, mas sim de sua doutrina e promessa de salvação[3]. A luta da humanidade consiste, então, em libertar-se definitivamente desta “prisão” carnal. Entretanto essa libertação só seria possível através de uma intervenção divino-miraculosa: aquilo que eles chamavam de “mensageiro do Reino Espiritual”. Dentro do Cristianismo, esse mensageiro foi associado à pessoa de Jesus Cristo.

Entretanto é exatamente aqui que o gnosticismo encontrou a sua maior barreira dentro do Cristianismo. Para os adeptos desse movimento, Jesus não poderia ser a encarnação de Deus na terra, uma vez que a matéria e o corpo são essencialmente maus. Essa ideia foi levada ao extremo quando os “docetistas” afirmaram que Cristo não poderia ser um homem corpóreo, mas apenas uma aparência, “um fantasma que parecia ter corpo físico por meios milagrosos[4]. O Cristo encarnado não era divino por estar vestido de um corpo ontologicamente mal.

Diante disso, duas reações quanto à vida na terra: alguns castigavam o seu corpo na esperança de que o poder maligno na matéria fosse debilitado; outros foram no sentido diametralmente contrário, ou seja, já que o espírito é essencialmente bom, nada que o corpo fizer poderia destruí-lo – o resultado disso era a libertinagem[5].

            Que impacto esse movimento teve dentro da igreja? Essa pergunta é muito fácil de ser respondida. O fundamento do cristianismo é a crença que Deus se fez carne e veio ao mundo, nascendo de uma virgem, e que morreu na cruz, ressuscitando de maneira corpórea, à vista de centenas de testemunhas. Assim sendo, não caberia dentro da doutrina cristã uma interpretação tão mística, desencarnada e dualista como a dos gnósticos-docetistas. 

Muito se tentou fazer para extirpar esse pensamento de dentro da Igreja: consolidação do cânon neotestamentário, o estabelecimento da fórmula romana (Credo Apostólico), os diversos Concílios Ecumênicos que se sucederam a partir de Nicéia, etc.

Mas uma pergunta que se pode fazer tendo em mente o gnosticimo-docetismo é a seguinte: Ela foi definitivamente extirpada do cotidiano cristão? Depois de mais de vinte séculos podemos enxergar rastros desse movimento tão antigo hoje? Ao vermos o cristianismo hoje, particularmente no Brasil, podemos dizer que o gnosticismo-docetismo é uma pagina virada da história da igreja?

A posição que defendo é que embora tenhamos vivenciado um desenvolvimento incalculável na Teologia ao longo de vinte séculos, a questão da corrupção ontológica da matéria, um pilar importante do gnosticismo, permanece como um tabu em muitas Igrejas e comunidades cristãs.

Algumas celebrações em determinadas comunidades eclesiásticas, por exemplo, enfatizam o aspecto místico-espiritual em detrimento de uma “teologia da esperança” cujo final é a redenção não somente do espírito, mas de todo o corpo e também de toda a natureza, conforme nos apresenta todo o Novo Testamento. Alia-se a isso, a introdução dentro dos ritos cristãos de elementos pagãos que acentuam o misticismo e até a superstição.

Indo um pouco mais além: se nós temos ainda essa influência gnóstica dentro do cristianismo, podemos enxergar um docetismo também? Creio que não da maneira como essa idéia foi concebida originalmente a partir do segundo século, porém, ainda é difícil para a maioria dos cristãos relacionarem, e.g., a ressurreição corpórea de Cristo com a nossa própria, ou seja, que até nosso corpo físico será redimido no final da história. Logo, o corpo não pode ser algo totalmente descartável.

Se o corpo físico fosse tão abominável o que diremos da Encarnação de Cristo, doutrina central do Cristianismo? O gnosticosmo-docetismo vai no sentido contrário do Novo Testamento, pois anula e aniquila algo que no final o próprio Deus redimirá e restaurará: o Homem, entendido na sua plenitude e, junto com ele,  toda a natureza física criada.

Em último lugar, da mesma maneira que o gnosticimo-docetismo era sincrético, nosso cristianismo também o é quando assimila dentro de sua formulação doutrinaria e prática aspectos estranhos ao Novo Testamento como uma tendência a espiritualizar tudo, de dissociar de maneira clara e irreversível o corpo da alma-espírito, como se o corpo físico fosse essencialmente mal, de não entender o papel relevante e fundamental que devemos desempenhar ainda nesse mundo, que embora esteja corrompido pelo pecado, ainda é alvo da graça de Deus.

O gnosticismo-docetismo não pode ser considerado uma heresia ultrapassada. Muito pelo contrário, ela ganha nova roupagem ao longo das gerações e ainda hoje confronta-se diretamente contra à essência do Evangelho.



Notas Bibliográficas.

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Do início até o Concílio de Calcedônia. Vl 1, Cultura Cristã, São Paulo, 2004.

__________________. A Era dos Mártires. Uma História Ilustrada do Cristianismo. Vl 1. Vida Nova, São Paulo, 2003.

HURLBUT, Jessé Lyman. História da Igreja Cristã, Vida, São Paulo, 2010.

WALKER, W. História da Igreja Cristã, Aste, 4a. Edição, São Paulo, 2006.


[1] Cf. Hurbut in HIC, pág. 77
[2] Cf. Walker in HIC, pág. 75
[3] Cf. González, in UHPC, pág. 134.
[4] Cf. González in História Ilustrada do Cristianismo, Vl 1. pág. 98
[5] Cf. González, in UHPC, pág. 127.

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